REBELO SPEERS WATERS TRIO
Esta música começa pela escuta — por vezes uma espécie de micro-escuta na sua atenção ao detalhe. É uma música sobre a curiosidade perante as sonoridades – algumas intencionais, outras acidentais. Vive do espaço, da intenção, do silêncio e da interação, resultando frequentemente numa dinâmica conversacional entre os três músicos. Estas conversas são, ao mesmo tempo, diálogos alinhados e lógicos, e muitas vezes díspares, até sonoramente absurdos!
O trio passa de completar as frases musicais uns dos outros a cada um dos indivíduos explorar caminhos separados, encontrando por vezes um ponto de convergência.
É uma música abstrata e de natureza não simbólica, mas que contém referências a idiomas musicais frequentemente semi-ocultos ou «encobertos». Este encobrimento assemelha-se ao processo de lançar lençóis sobre os móveis quando uma casa é deixada vazia durante muito tempo. A cobertura oferece proteção enquanto a casa adquire uma outra forma, embora as silhuetas de uma cama, de um sofá ou de uma poltrona continuem reconhecíveis. Aqui, as formas semi-ocultas são idiomas musicais — incluindo as margens da jazz, a música antiga, a música eletroacústica, o ritmo africano, a complexidade modernista, o minimalismo e o drone — visíveis em graus variados por baixo dos lençóis imaginários.
A nossa prática é improvisatória, enraizada em abordagens exploratórias às ecologias instrumentais de cada um e às musicalidades de cada um — por vezes convergentes, outras divergentes. A música oscila entre a repetição quase obsessiva e a mudança, traduzindo-se numa luta constante entre a estase e o movimento. Cada músico adota uma abordagem expandida ao seu instrumento, com o piano, a bateria e o contrabaixo a servirem de base para intervenções com objetos e dispositivos, criando assemblagens sónicas que expandem significativamente a sonoridade do trio.
Pedro Rebelo é compositor, improvisador, artista sonoro e investigador cujo trabalho abrange composição, som imersivo, escuta aumentada e arte de intervenção social, com projectos participativos financiados pelo AHRC em Belfast, Portugal, Brasil e Moçambique, resultando em exposições por toda a Europa, Brasil e África. A sua música foi apresentada no Melbourne Recital Hall, no National Concert Hall de Dublin, no Queen Elizabeth Hall, na Ars Electronica e em festivais como Wien Modern, Huddersfield, Warsaw Autumn, Cynetart e Música Viva. Colaborou com músicos como Chris Brown, Carlos Zingaro, Evan Parker e Pauline Oliveros. A sua ópera Blown Off Course estreou em Lisboa em 2023. Rebelo ocupou cargos de professor visitante na Universidade de Stanford, na UFRJ e na Universidade Nova. Na Queen’s University Belfast, desempenhou funções de liderança sénior e tornou-se Professor de Artes Sónicas em 2012. Desde 2021, dirige o SARC, liderando o seu relançamento no 20.º aniversário, tendo atraído investimento significativo em infraestruturas.
Michael Speers (1992) é baterista, artista sonoro e investigador natural do Condado de Down, Irlanda. Actualmente é doutorando no SARC: Centro de Investigação Interdisciplinar em Som e Música, em Belfast. A sua prática incorpora percussão, feedback, síntese digital e som ambiental na criação de performances improvisadas, instalações sonoras site-specific e composições electroacústicas. Tem actuado internacionalmente em espaços como: Café OTO, LOM, Les Instants Chavirés, Les Ateliers Claus, Morphine Raum, SARC Sonic Lab, National Concert Hall (Dublin) e no Festival Sonic Acts. Gravações publicadas pela Anòmia, C.A.N.V.A.S., Party Perfect!, Wasted Capital Since 2013, Takuroku, Krim Kram e Feedback Moves.
Simon Waters é compositor, improvisador, intérprete e construtor de instrumentos que ganhou destaque nos anos 1980 como compositor de música electroacústica, colaborando com várias companhias de dança contemporânea de referência. Waters integrou a equipa do SARC em 2012, assumindo de imediato o cargo de Director do Festival Sonorities. Enquanto programador, trabalhou com a Fylkingen (Estocolmo) e o Ultima Festival (Oslo), e foi responsável pela programação da série Sonic Arts em Norwich durante mais de 15 anos, produzindo mais de 100 concertos. Desde 2016, é também Investigador Associado do Orpheus Institute de Ghent. Tem sido uma figura central na gradual transformação e crescimento da música eletroacústica no âmbito das «Artes Sónicas», influenciando consideravelmente a expansão desta área no ensino superior no Reino Unido. A sua investigação atual explora as continuidades entre o tato e a audição, e debruça-se sobre o espaço entendido como algo que é informado pela presença humana e que a informa, em vez de o conceber como um simples «parâmetro» neutro. O seu trabalho de base prática é contrabalançado por um interesse no entrelaçamento histórico da música com as tecnologias. Tem improvisado, de uma forma ou de outra, ao longo de praticamente toda a sua vida.
