REBELO SPEERS WATERS TRIO
REBELO SPEERS WATERS TRIO
Esta música começa pela escuta — por vezes uma espécie de micro-escuta na sua atenção ao detalhe. É uma música sobre a curiosidade perante as sonoridades – algumas intencionais, outras acidentais. Vive do espaço, da intenção, do silêncio e da interação, resultando frequentemente numa dinâmica conversacional entre os três músicos. Estas conversas são, ao mesmo tempo, diálogos alinhados e lógicos, e muitas vezes díspares, até sonoramente absurdos! O trio passa de completar as frases musicais uns dos outros a cada um dos indivíduos explorar caminhos separados, encontrando por vezes um ponto de convergência. É uma música abstrata e de natureza não simbólica, mas que contém referências a idiomas musicais frequentemente semi-ocultos ou «encobertos». Este encobrimento assemelha-se ao processo de lançar lençóis sobre os móveis quando uma casa é deixada vazia durante muito tempo. A cobertura oferece proteção enquanto a casa adquire uma outra forma, embora as silhuetas de uma cama, de um sofá ou de uma poltrona continuem reconhecíveis. Aqui, as formas semi-ocultas são idiomas musicais — incluindo as margens da jazz, a música antiga, a música eletroacústica, o ritmo africano, a complexidade modernista, o minimalismo e o drone — visíveis em graus variados por baixo dos lençóis imaginários. A nossa prática é improvisatória, enraizada em abordagens exploratórias às ecologias instrumentais de cada um e às musicalidades de cada um — por vezes convergentes, outras divergentes. A música oscila entre a repetição quase obsessiva e a mudança, traduzindo-se numa luta constante entre a estase e o movimento. Cada músico adota uma abordagem expandida ao seu instrumento, com o piano, a bateria e o contrabaixo a servirem de base para intervenções com objetos e dispositivos, criando assemblagens sónicas que expandem significativamente a sonoridade do trio.  
 
Estaleiro Almada/Orozco
Estaleiro Almada/Orozco
Em 2019 Portela teve a oportunidade de visitar os frescos de OROZCO em Cabanas sobre a chegada dos “hispânicos” à América Latina. A ligação aos murais de Almada Negreiros na Gare Marítima de Lisboa foi imediata e incómoda. Como se olhasse num espelho que mostra o avesso da História que nos contaram na escola. Deu por si a imaginar-se num corredor onde, de um lado, está a gare de Alcântara, em Lisboa, que acolheu refugiados na WWII, os soldados regressados da guerra colonial após o 25 de abril, e também a casa das pinturas que Salazar encomendou a Almada para “mostrar a grandiosidade das conquistas portuguesas pelo mundo”. Do outro lado do atlântico, um Orozco documenta a chegada destes conquistadores. Com fogo. Com sangue. Com crucifixos, armaduras e hábitos assustadores. O objetivo desta instalação é fundir estes dois painéis um no outro, como se pudéssemos entrar num espaço e viver em simultâneo, a partida entusiasta dos barcos portugueses e a chegada desastrosa para quem habita o outro lado do atlântico no mesmo corpo. Atravessados pela projeção, vivemos o encontro entre os dois lados. Tripartida em 3 projeções, uma que conta a partida de Lisboa, outra que conta a chegada à costa da América Latina e uma terceira onde podemos visualizar a interseção dos dois e a consequente transformação de ambas ao centro, o objetivo é criar um percurso para espectadores onde nunca se consiga estar apenas de um lado da barricada. Enquanto composição sonora, uma seleção de discursos políticos atuais sobre emigração, deportação e valores nacionalistas compõe um longo poema que se auto-destrói, fomentando em nós a dúvida sobre qual a história oficial destas viagens. Com este projeto, Portela e André, que há mais de uma década colaboram um com o outro, desejam chegar mais longe na sua pesquisa tecnológica e conjugar elementos ao vivo e em pós produção para contar a história do que está entre dois lugares e nunca pode ser visto em simultâneo. Para estes estaleiros apresentaremos a primeira fase de pesquisa deste projeto agora iniciado.  
 
Pó-de-Pedra, Pode Pedra
01 de junho
Pó-de-Pedra, Pode Pedra
Foi assim que começou. Quando parecia ter acabado. Fixei o chão e sem pestanejar apercebo-me de um pedaço de terra molhada que não me parecia ficar bem ali. Apanhei o pedaço de terra com as duas mãos e, sem saber muito bem porquê, guardei-o nos bolsos e decidi dar um passeio. Só pararia quando soubesse onde queria chegar. Talvez até um lugar onde esta terra encaixasse. Ou onde eu encaixasse. Caminhei até à casa de um vizinho, bati à porta, e, como não me atendeu, fiquei ali, parada, a olhar para um retângulo perfeito, desenhado no lugar de um tapete que alguém removeu. Sem saber muito bem porquê, aprofundei o recorte do tapete na terra batida e troquei a terra molhada que trazia nos bolsos por terra seca. Enchi de novo os dois bolsos e parti como se tivesse deixado uma mensagem. Nunca mais parei. Passo os dias a mudar o mundo de lugar. “Pó-de-Pedra, Pode Pedra” é um espetáculo-percurso onde, em conjunto com os espectadores vamos construindo o mundo inteira à medida que o vamos descobrindo porque nos passeamos por ele, trocando cimento por argila trocada por azulejos trocados por cristal trocado por porcelana trocada por chá trocado por algodão trocado por café trocado por especiarias trocadas por âmbar trocado por resina trocada por mel trocado por cana trocada por açúcar trocado por óleo de palma trocado por sementes trocadas por raízes trocadas por lava, trocada por carvão trocado por basalto trocado por quartzo, trocado por mármore, trocado por granito, trocado por trocado por trocado por. Um dia o mundo estará tão trocado que nos sentiremos em casa em qualquer parte.    
Teatro