Pó-de-Pedra, Pode Pedra
Foi assim que começou. Quando parecia ter acabado. Fixei o chão e sem pestanejar apercebo-me de um pedaço de terra molhada que não me parecia ficar bem ali. Apanhei o pedaço de terra com as duas mãos e, sem saber muito bem porquê, guardei-o nos bolsos e decidi dar um passeio. Só pararia quando soubesse onde queria chegar. Talvez até um lugar onde esta terra encaixasse. Ou onde eu encaixasse. Caminhei até à casa de um vizinho, bati à porta, e, como não me atendeu, fiquei ali, parada, a olhar para um retângulo perfeito, desenhado no lugar de um tapete que alguém removeu. Sem saber muito bem porquê, aprofundei o recorte do tapete na terra batida e troquei a terra molhada que trazia nos bolsos por terra seca. Enchi de novo os dois bolsos e parti como se tivesse deixado uma mensagem. Nunca mais parei. Passo os dias a mudar o mundo de lugar.
“Pó-de-Pedra, Pode Pedra” é um espetáculo-percurso onde, em conjunto com os espectadores vamos construindo o mundo inteira à medida que o vamos descobrindo porque nos passeamos por ele, trocando cimento por argila trocada por azulejos trocados por cristal trocado por porcelana trocada por chá trocado por algodão trocado por café trocado por especiarias trocadas por âmbar trocado por resina trocada por mel trocado por cana trocada por açúcar trocado por óleo de palma trocado por sementes trocadas por raízes trocadas por lava, trocada por carvão trocado por basalto trocado por quartzo, trocado por mármore, trocado por granito, trocado por trocado por trocado por. Um dia o mundo estará tão trocado que nos sentiremos em casa em qualquer parte.