Pó-de-Pedra, Pode Pedra
Foi assim que começou. Quando parecia ter acabado. Fixei o chão e sem pestanejar apercebo-me de um pedaço de terra molhada que não me parecia ficar bem ali. Apanhei o pedaço de terra com as duas mãos e, sem saber muito bem porquê, guardei-o nos bolsos e decidi dar um passeio. Só pararia quando soubesse onde queria chegar. Talvez até um lugar onde esta terra encaixasse. Ou onde eu encaixasse. Caminhei até à casa de um vizinho, bati à porta, e, como não me atendeu, fiquei ali, parada, a olhar para um retângulo perfeito, desenhado no lugar de um tapete que alguém removeu. Sem saber muito bem porquê, aprofundei o recorte do tapete na terra batida e troquei a terra molhada que trazia nos bolsos por terra seca. Enchi de novo os dois bolsos e parti como se tivesse deixado uma mensagem. Nunca mais parei. Passo os dias a mudar o mundo de lugar.
“Pó-de-Pedra, Pode Pedra” é um espetáculo-percurso onde, em conjunto com os espectadores vamos construindo o mundo inteira à medida que o vamos descobrindo porque nos passeamos por ele, trocando cimento por argila trocada por azulejos trocados por cristal trocado por porcelana trocada por chá trocado por algodão trocado por café trocado por especiarias trocadas por âmbar trocado por resina trocada por mel trocado por cana trocada por açúcar trocado por óleo de palma trocado por sementes trocadas por raízes trocadas por lava, trocada por carvão trocado por basalto trocado por quartzo, trocado por mármore, trocado por granito, trocado por trocado por trocado por. Um dia o mundo estará tão trocado que nos sentiremos em casa em qualquer parte.
𝗣𝗮𝘁𝗿𝗶́𝗰𝗶𝗮 𝗣𝗼𝗿𝘁𝗲𝗹𝗮 (𝟭𝟵𝟳𝟰). Autora de performances e obras literárias, tem um mestrado em cenografia pela Faculdade de Utrecht e em Filosofia Contemporânea pelo Instituto Internacional de Filosofia de Leuven. Estudou cinema e dança contemporânea. Viveu em Macau, Utrecht, Helsínquia, Ebeltoft, Berlim, Antuérpia (durante quase duas décadas), Viseu e Lisboa. É reconhecida “pela peculiaridade da sua obra” que itinera pelo mundo, e recebeu por ela vários prémios das quais destaca o Prémio Madalena Azeredo de Perdigão/FCG para os espetáculos Flatland I (2004) e Wasteband (menção honrosa em 2003). Foi Finalista do Primeiro Prémio Multimédia Sonae/MNACC em 2015 com Parasomnia, Finalista do Prémio de Grande Romance e Novela APE de 2013 com Banquete, e, mais recentemente, finalista do Prémio Correntes d’Escritas e Prémio Ciranda 2022 com Hífen, um romance que Miguel Real, do JL, considerou de “histórico”. É autora de vários romances e novelas, cronista no JL desde 2017 e cronista na Antena 1 por 6 meses em 2019. Foi diretora artística do Teatro Viriato em Viseu durante a pandemia (2020-2022), e da Rua das Gaivotas 6, em Lisboa em 23 e 24.
𝗡𝗮𝘁𝗮𝗰𝗵𝗮 𝗖𝗮𝗺𝗽𝗼𝘀, (𝟭𝟵𝟵𝟳). Amadora. É afro-descendente de pais angolanos. Licenciou-se na Escola Superior de Dança em 2018, destacando o contacto com Jácome Filipe, Maria Ramos, Madalena Vitorino e Pietro Romani. Frequentou a Performact em Torres Vedras de 2018 a 2020, cruzando-se com Eddy Becquart, João Cardoso, Chloé Beilevaire, Ted Stoffer, Magalie Lanriot e Iñaki Azpillaga. Completou o curso de produção de espetáculos de Patrícia Reis. Atualmente termina o mestrado em artes cénicas na FCSH e completou o PACAP 8 no Fórum Dança, com curadoria de Meg Stuart e Ana Rocha. Como intérprete trabalhou com Beatriz Cantinho, Sofia Dia e Vítor Roriz, Rui Catalão, Cláudia Semedo, Joana Providência, Jo Castro. Estreou-se como curadora em “Ecossistema. danças, corpos” programa co-curado por Cláudia Galhós inserido na programação a Ordem do O nos Estúdios Vítor Córdon. Como criadora desenvolveu o Project THEFRUIT-na occidental title, o solo Other than you (2020), Faded (2019), Mechanical animal (2023), Íla (2023).
