Estaleiro Almada/Orozco

Estaleiro Almada/Orozco

Em 2019 Portela teve a oportunidade de visitar os frescos de OROZCO em Cabanas sobre a chegada dos “hispânicos” à América Latina. A ligação aos murais de Almada Negreiros na Gare Marítima de Lisboa foi imediata e incómoda. Como se olhasse num espelho que mostra o avesso da História que nos contaram na escola. Deu por si a imaginar-se num corredor onde, de um lado, está a gare de Alcântara, em Lisboa, que acolheu refugiados na WWII, os soldados regressados da guerra colonial após o 25 de abril, e também a casa das pinturas que Salazar encomendou a Almada para “mostrar a grandiosidade das conquistas portuguesas pelo mundo”.

Do outro lado do atlântico, um Orozco documenta a chegada destes conquistadores. Com fogo. Com sangue. Com crucifixos, armaduras e hábitos assustadores.

O objetivo desta instalação é fundir estes dois painéis um no outro, como se pudéssemos entrar num espaço e viver em simultâneo, a partida entusiasta dos barcos portugueses e a chegada desastrosa para quem habita o outro lado do atlântico no mesmo corpo.

Atravessados pela projeção, vivemos o encontro entre os dois lados. Tripartida em 3 projeções, uma que conta a partida de Lisboa, outra que conta a chegada à costa da América Latina e uma terceira onde podemos visualizar a interseção dos dois e a consequente transformação de ambas ao centro, o objetivo é criar um percurso para espectadores onde nunca se consiga estar apenas de um lado da barricada.

Enquanto composição sonora, uma seleção de discursos políticos atuais sobre emigração, deportação e valores nacionalistas compõe um longo poema que se auto-destrói, fomentando em nós a dúvida sobre qual a história oficial destas viagens.

Com este projeto, Portela e André, que há mais de uma década colaboram um com o outro, desejam chegar mais longe na sua pesquisa tecnológica e conjugar elementos ao vivo e em pós produção para contar a história do que está entre dois lugares e nunca pode ser visto em simultâneo.

Para estes estaleiros apresentaremos a primeira fase de pesquisa deste projeto agora iniciado.

 

Patrícia Portela (1974). Autora de performances e obras literárias, tem um mestrado em cenografia pela Faculdade de Utrecht e em Filosofia Contemporânea pelo Instituto Internacional de Filosofia de Leuven. Estudou cinema e dança contemporânea. Viveu em Macau, Utrecht, Helsínquia, Ebeltoft, Berlim, Antuérpia (durante quase duas décadas), Viseu e Lisboa. É reconhecida “pela peculiaridade da sua obra” que itinera pelo mundo, e recebeu por ela vários prémios das quais destaca o Prémio Madalena Azeredo de Perdigão/FCG para os espetáculos Flatland I (2004) e Wasteband (menção honrosa em 2003). Foi Finalista do Primeiro Prémio Multimédia Sonae/MNACC em 2015 com Parasomnia, Finalista do Prémio de Grande Romance e Novela APE de 2013 com Banquete, e, mais recentemente, finalista do Prémio Correntes d’Escritas e Prémio Ciranda 2022 com Hífen, um romance que Miguel Real, do JL, considerou de “histórico”. É autora de vários romances e novelas, cronista no JL desde 2017 e cronista na Antena 1 por 6 meses em 2019. Foi diretora artística do Teatro Viriato em Viseu durante a pandemia (2020-2022), e da Rua das Gaivotas 6, em Lisboa em 23 e 24.

José André (….)